Santo Antônio do Monte

 

Apresento, neste link, versões de crenças, mitos e histórias do cotidiano, sem compromisso com a veracidade dos fatos, pois tento apenas indicar a cosmologia da população local. Os nomes usados são fictícios, preservando as pessoas que protagonizaram as histórias ou seus descendentes. Afinal, todas merecem respeito de qualquer pesquisador que ousa elaborar a etnografia de uma população.

 

Fuga de namorados


Em meados do século XX, os pais eram muito vigilantes quanto à honra de suas filhas, exigindo que elas permanecessem virgens até o casamento. Os pretendentes à sua mão tampouco aceitariam unir-se a quem se desse ao seu desfrute, antes da cerimônia nupcial. Nessa época, os filmes exibidos eram criteriosamente selecionados, excluindo todos que apresentassem cenas calientes ou enredo apimentado. Não havia televisão nem circulavam revistas com conteúdo pornográfico. O sexo era, então, um grande mistério para as adolescentes e elas tinham suas paixões correspondidas por rapazes com iniciação nas casas de tolerância, mas sem projeto de vida bem definido. Fugiam, logo que anoitecia, sem avaliar a afinidade e muito menos a viabilidade econômica da parceria conjugal. Passar algumas horas juntos distante da casa paterna era razão suficiente para que a família se sentisse ultrajada, na manhã seguinte, e providenciasse, imediatamente, o casamento, na sacristia da igreja.
Houve um casal que decidiu alojar-se na fazenda do pai da moça, mas precisou suportar a noite de inverno na varanda, porque a porta estava trancada. Quando o fazendeiro descobriu que a filha havia fugido, decidiu que seria melhor trabalhar duro para superar a irritação, mas ficou ainda mais indignado ao encontrar os dois pombinhos em sua propriedade. Levou-os, incontinenti, para a cidade, onde foi realizado o rito sumário com apoio irrestrito dos pais do rapaz.

 

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Queima de Judas
 

Até meados do século XX, a malhação do traidor de Jesus Cristo, Judas Iscariotes, era um grande evento em Santo Antônio do Monte. Realizado sempre após a Missa solene das 10 horas do Domingo de Páscoa, era dirigido pelos rapazes com mais talento para o teatro e os discursos em praça pública. Stefano Lavello comandou várias apresentações desse tipo nos anos 1930, sempre com muito humor e irreverência.
Houve um ano, por exemplo, que ele trabalhou como um mouro, preparando um grande boneco recheado com bombinhas e vestido com roupas velhas de seu tio. Redigiu também um longo testamento para ler na Praça da Matriz. Todos sabiam que ele havia caprichado nos preparativos e muita gente foi ver a brincadeira.
No mesmo palanque, onde houve, dois dias antes, a encenação do julgamento e suplício de Jesus Cristo, Stefano Lavello lia com graça o texto, arrancando gargalhadas dos presentes, pela sua criatividade. Judas teria deixado para um adversário no truco, uma cueca rasgada; para um fazendeiro sovina, uma sela usada na Guerra do Paraguai, e, para uma mulher fútil, um espelho quebrado.
No vigésimo contemplado, o pistoleiro de aluguel mais temido da cidade perguntou do meio da multidão:
- Stefano, e pra mim, Judas num deixou nada?
Aí, o moço, entusiasmado com o sucesso, resolveu improvisar:
"Ao amigo Chico Diniz
Inimigo do Padre Eterno
Pra ele eu vou deixar
As chaves do inferno
."
Todos riram e ficaram admirados com a ousadia do rapaz, porque tratava com irreverência uma pessoa que não pensava duas vezes para matar quem o estivesse incomodando. O pistoleiro também achou divertido e disse ironicamente:
- Tá bem, Stefano, mas eu vô guardá seu lugar e te esperá ao lado de Satanás.
A plateia vibrou, apreciando a espontaneidade dos dois para falar sobre a morte, o Inferno e o Capeta.
Logo depois, tudo acabou em paz e alegria, explodindo o boneco com cuidado para não ferir ninguém. Muita gente comentou depois, em casa, o diálogo que houve entre Stefano e o pistoleiro, durante a leitura do testamento de Judas. Todos tomaram cuidado de fazer o Sinal da Cruz, quando havia referência ao Tinhoso.
Na mesma noite, Chico Diniz envolveu-se num rififi na pensão da Julieta, e foi morto por um forasteiro mais rápido do que ele no gatilho.
Quando Stefano soube da morte do homem, ficou desesperado e passou uma semana sem sair de casa. Temia que a alma do pistoleiro, cumprindo sua ameaça, viesse buscá-lo para o fogo eterno.
Como a boemia tinha seus encantos, ele não suportou, entretanto, muitas noites em casa. Precisava voltar logo à diversão. No início, arrepiava-se todo ao andar pelas ruas desertas e mal iluminadas, mas lutou contra o medo e, em pouco tempo, ria da sua fraqueza momentânea, porque afinal nunca duvidou de que era muito macho.

 

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Solteirona e seu correspondente baiano

 

Por volta de 1940, Ester não se conformava com a sua condição de solteira aos 50 anos. Precisava arrumar um marido e ficou trocando correspondência com um baiano de 25 anos. Ela disse que tinha 18. Entusiasmado com as belas cartas de amor, Humberto solicitou fotografias. Ela enviou uma tirada por retratista profissional, quando era mocinha. Encheu os olhos do rapaz com sua beleza e classe. Humberto veio, então, conhecer sua amada. Quando Ester soube que ele estava na cidade, pediu à irmã para avisar que ela morrera, na semana anterior, tendo sido enterrada em Lagoa da Prata. Ele foi lá para visitar o túmulo e chorar sua tristeza, mas não encontrou a sepultura. Uma mulher o viu bem abatido e disse que nada disso acontecera, porque conhecia bastante a solteirona regateira.
Humberto voltou logo à cidade e queria bater em Ester pelo desaforo, mas ela se escondeu numa fazenda para escapar do vexame.

 

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Mau olhado

 

Há uma crença generalizada, no Centro-Oeste de Minas Gerais, quanto a pessoas que têm olhar muito forte; por isso, "secam" plantas, pessoas e, principalmente, bebês, se sentirem inveja do que pertence a outro. Nos anos 1920, Mariquita era simpática, mas sabia que podia prejudicar pessoas. Não se arriscava chegar, então, nem na casa de sua mãe sem os devidos cuidados. Anunciava da porta, porque não podia entrar, se Dona Chiquinha estivesse fazendo sabão. Caso contrário, a receita desandava; ou seja, não atingia o ponto certo.
Em todos esses casos, não adianta tomar remédio de farmácia. É indispensável procurar uma benzedeira e, nos casos mais graves, um rezador com poderes mágicos especiais.

 

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Apreço dos criadores de gado leiteiro pelas suas reses

 

Os criadores de gado leiteiro de Santo Antônio apreciam muito suas reses, porque elas são a base da subsistência da família, proporcionando alegria e conforto material. Eles escolhem nomes bonitos para as vacas (Princesa, Estrela, Turmalina e Preciosa, por exemplo) e os bois (Campeão, Malhado, Soberano e Digno), não os entregam diretamente para o corte, depois que perdem os dentes, e tratam as matrizes com desvelo, especialmente na hora da ordenha e elas correspondem aos afagos. Em 1976, um proprietário (70 anos) disse:
"A vaca é que guenta a nação; por aqui, é. É um animal de muita produção, que a gente num pode deixá... Uma vaca enche o pasto. Ela produz, mesmo que seja tudo fêmea; aquela fêmea produz, a fia da fêmea vai produzino e enche o pasto. E dá a renda do leite. A gente vende, paga as dívida, paga a farmácia, paga o médico, o esterco põe na planta... É de muita utilidade a rês. A rês é de muito valor; produz muito; é o que guenta..."

 

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Homem medroso


Em 1930, a fama de Benedito era a pior possível, como homem mesquinho, ganancioso e arrogante. Tratava seu cunhado, Pedro, com crueldade, humilhando-o por ser alcoólatra.
Quando Pedro morreu, Benedito foi ao velório apenas para segurar a língua do povo, pois não sentia o mínimo pesar.
Alta madrugada, Benedito acordou, sentindo que alguém puxava seu pé com uma mão fria e pegajosa. Começou, então, o berreiro:
- O que é isso, compadre Pedro? Por que tá aqui? Se quer Missa, vou encomendar três, logo cedo. Se deixou dívida, aceito pagar sem apresentar a conta pra Comadre Justina. Se está preocupado com os órfãos, prometo cuidar deles a vida inteira, mas me deixa em paz, pelo amor de Deus! Eu não quero te acompanhar pro outro mundo...
A esposa tinha acordado com aquele palavrório todo, mas ainda não havia descoberto a razão de tantos propósitos nobres do marido sovina. Alguma coisa muito estranha estava acontecendo...
Resolveu acender a luz e viu que seu filho de 17 anos tinha entrado no quarto, porque estava bêbado e confundira as portas na escuridão do corredor. Havia caído, além disso, junto da cama, e tentava levantar-se, puxando as cobertas e tocando os pés do pai, sem ter a mínima ideia do que estava aprontando.
Passado o susto, Benedito manteve a mesma postura detestável, trapaceando, inclusive, a viúva, num acerto de venda de gado para o finado, encerrada poucos dias antes da sua morte.

 

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Peripécias do sacristão de Padrinho Vigário

 

Por volta de 1920, o sacristão de Padrinho Vigário ficava indignado com os moleques que invadiam o terreno da casa do venerável sacerdote para roubar frutas. Decidiu, então, por conta própria, injetar tártaro emético, com uma seringa, nas mangas e jabuticabas quase no ponto de apanhar, para que a meninada tivesse diarréia e desistisse da invasão.
 

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Padrinho Vigário censurava as maldades do sacristão e queria que ele se confessasse, mas o homem negava. O sacerdote pediu ajuda a um missionário, contando-lhe o que seu auxiliar fazia. Quando este foi abordado pelo missionário, dizendo o que ouvira de Monsenhor Otaviano, o sacristão ajoelhou diante dele e falou:
- Então me absolva logo, porque já sabe mesmo todos os meus pecados!

 

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O sacristão detestava as mocinhas ricas que estudavam, como internas, em outras cidades. Certo dia, elas pediram que ele ensinasse como limpar açúcar que vinha bem escuro das fazendas dos pais. Ele deu a seguinte orientação: elas deveriam estender uma toalha branca no quintal, pôr o açúcar e jogar água. Melou tudo e elas reclamaram. Ele refutou, todo atrevido:
- Oceis num são tão sabidas? Por que não fizeram certo?

 

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Dolorosa relação entre pais e filhos
 

Os pais eram muito rígidos com as filhas, temendo que elas perdessem a honra; por isso, elas dormiam num quarto próximo do deles. Era, às vezes, uma alcova, sem janela e porta independente, mas isso não impedia que algumas pulassem uma janela para encontrar seu amado, tarde da noite.
Alguns homens eram, ao mesmo tempo, cruéis com os rapazes, cobrando alta produção no trabalho. Um fazendeiro exigia, por exemplo, de seu filho, aos 16 anos, que vendesse leite de porta em porta, sabendo que:
- deveria dar um choro (um pouquinho mais de leite) para alguns clientes, assegurando a freguesia;
- não podia dar quebra (diferença entre o volume de leite e o dinheiro obtido), no final do dia;
- não podia vender fiado para ninguém;
- não podia atrasar na volta para o sítio;
- não podia levar leite para trás.
Esse rapaz é, hoje, um ancião e contou, recentemente, que apanhava com frequência, porque quase nunca cumpria as metas. O pai usava, para isso, as tacas de bater burro e ele jamais revidou, mantendo o respeito filial por toda a vida e cobrindo suas despesas nos últimos anos.
Quando foi trabalhar como retireiro para um tio, não podia andar a cavalo, fora do expediente, porque isso era privilégio dos proprietários rurais.

 

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Velório com dança

 

Ernesto e Marcelo foram avisados do falecimento de seu amigo, Tiãozinho, que vivia no Diamante. Preparam, então, o funeral, porque precisavam prestar as homenagens ao trabalhador. Levaram o caixão da caridade, a mortalha, dez quilos de linguiça, farinha de mandioca e dois pipotes de cachaça. Fazia muito frio e todos os amigos estavam no terreiro, porque a sala do casebre era muito pequena. Comiam, bebiam e contavam caso, quando viram um sanfoneiro passando na trilha, logo acima. Chamaram o rapaz, que aceitou mostrar seus dotes artísticos. Todos começaram a dançar e a viúva ficou muito entusiasmada. Quando o dia amanheceu, descobriram que o defunto estava coberto de poeira. Limparam-no e, constrangidos, levaram para enterrar na cidade.
No dia seguinte, a viúva tomou consciência de que tinha dançado bastante, no velório do marido. Ficou muito irritada com Marcelo e saiu à sua procura para um acerto de contas. O rapaz não aceitou a ideia de apanhar de mulher e ficou escondido, por uma semana, na fazenda de seu amigo, Ernesto, até que ela se acalmasse.

 

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A desmoralização do sargento a serviço do coronel


Na primeira metade do século XX, havia disputa acirrada entre diversos grupos que dominavam a política em Santo Antônio do Monte, mas os rapazes não se prendiam às limitações de território definidas pela geração paterna, porque apreciavam a farra em todos os ambientes. Destacava-se, entre eles, o jovem Marcelo, eloqüente orador que liderava o ritual da queima de Judas, apresentando testamentos com considerações desfavoráveis aos turrões da cidade. O Coronel Xandiquinho decidiu, então, acabar, de uma vez por todas, com a irreverência e deu uma propina ao sargento para prender o moço no primeiro deslize, aplicando-lhe uma surra de criar bicho, antes que o pai do rapaz pudesse acionar o juiz para libertá-lo. O tiro saiu, entretanto, pela culatra, porque Marcelo mantinha sólida amizade com os soldados que o avisaram sobre a mobilização para flagrá-lo a qualquer momento. O rapaz conseguiu, então, que seu amigo, Ernesto Oliveira, combinasse com Dininha para atrair o sargento ao bordel e ele foi logo seduzido pelas três raparigas mais experientes nas tramas da paixão temperada com cachaça. O militar ficou bêbado em meia hora e, aí, as moças da casa providenciaram uma passeata até a residência do Coronel Xandiquinho, tocando bumbo, atirando para o alto e entoando o “Abre Alas” de Chiquinha Gonzaga. Era alta madrugada e todos os moradores das ruas percorridas chegaram à janela, quando ouviram a algazarra, descobrindo que o sargento estava à frente do cortejo em condições deploráveis, pelo nível etílico e pela ceroula com botas. Uma bela mulata vestia o seu dólmã todo amarfanhado e sujo de batom...
O Coronel Xandiquinho ficou irritadíssimo com o espetáculo, porque afrontava a honra das famílias e desmoralizava o policial que vinha prestando relevantes serviços aos manda-chuvas do Município. Além disso, os comentários sobre a incumbência principal do militar foram inevitáveis, porque os amigos de Marcelo espalharam as informações sobre o plano para aniquilar o rapaz, que era afilhado do Monsenhor Otaviano, considerado santo desde a sua morte, alguns meses antes.

 

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O feitiço atingiu o cachorro

 

No final do século XIX, uma mulher apaixonou-se pelo Padrinho Vigário (Monsenhor Otaviano José de Araújo) e enviava, frequentemente, uma bandeja com deliciosas quitandas para cativá-lo. Ele se recusava comer as iguarias e determinava que sua cozinheira enterrasse tudo no fundo do terreno.
Um belo dia, seu cachorro comeu uma broinha que ficou caída no quintal. Imediatamente, saiu correndo para a casa da mulher e lá ficou, embora muita gente tentasse atraí-lo de volta. Ele não abandonava a moça por momento algum e, quando ela morreu, ficou debaixo da essa, durante todo o tempo do velório. Acompanhou o enterro e permaneceu junto da cova até morrer de fome, alguns dias depois.
Todos se convenceram de que a mulher tinha preparado as quitandas para enfeitiçar o piedoso vigário e acabou seduzindo o cachorro.

 

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Três comadres no cemitério

 

Sinhana, Donana e Mariquinha faziam novenas seguidas no túmulo de Padrinho Vigário (Monsenhor Otaviano), quando terminavam a lida doméstica, ao anoitecer. Acreditavam que precisavam rezar sempre, em intenção da família, além de louvar a Deus a partir da memória do sacerdote querido.
Certa vez, no mês de junho, Sinhana chegou antes das amigas e ajoelhou-se atrás do gradil. Já estava escuro quando as outras apareceram no portão. Ela as viu e disse, na maior inocência:
- Comadre Donana, Comadre Mariquinha, venham para cá que eu já estou aqui.
As duas senhoras ficaram apavoradas, porque tinham várias comadres enterradas ali; portanto, alguma estava “aparecendo” para atraí-las ao repouso eterno. Desceram, em disparada, a rua, enquanto Sinhana, sem entender a reação das amigas, gritava do portão, usando uma longa saia em algodão rústico que era fustigada pelo vento, sob a luz fraca do poste ao lado:
- O que é isso, comadres? Sou eu! Por que estão correndo?
Elas caíram desmaiadas logo depois de atravessar a linha férrea...


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